sábado, 5 de julho de 2014

Intensa


*“O meu mundo não é como o dos outros, quero mais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, como uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!”

Muitas vezes nos sentimos assim: exaltada, com a alma intensa, que tem saudades... Saudades, eu sei lá de quê! Assim como o texto da autora *Florbela Espanca.

Alma


*“Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida. Meus olhos andam cegos de te ver! Não és sequer razão de meu viver, pois que tu és já toda a minha vida! Não vejo nada assim enlouquecida... Passo no mundo, meu Amor, a ler. No misterioso livro do teu ser. A mesma história tantas vezes lida! Tudo no mundo é frágil, tudo passa... Quando me dizem isto, toda a graça Duma boca divina fala em mim!”

De “Livro de Soror Saudade”, 1923. Na entrega, do amor e paixão, pela autora *Florbela Espanca.

Não queremos


*“ Sabemos muito claramente o que não queremos. Não queremos a violência, não queremos que a liberdade seja sofismada. Não queremos nem inquisições nem perseguições. Não queremos política da terra queimada. Não queremos política imposta. E no plano da cultura queremos acima de tudo que a política não seja anti-cultura. (...) Porque a demagogia é a arte de ensinar um povo a não pensar. (...) A cultura é cara. A incultura acaba sempre por sair mais cara. E a demagogia custa sempre caríssimo.”

*Sophia de Mello Breyner Andresen

Arte deve ser livre


*“Porque o ato de criação é em si um ato de liberdade. Mas não é só a liberdade individual do artista que importa. Sabemos que quando a Arte não é livre o povo também não é livre. Há sempre uma profunda e estrutural unidade na liberdade. Onde o artista começa a não ser livre o povo começa a ser colonizado e a justiça torna-se parcial, unidimensional e abstrata. (...) falta de liberdade cultural é um sintoma e significa sempre opressão para um povo inteiro.”

*Sophia de Mello Breyner Andresen

Gramática da vida


Eu desconheço o autor desse texto, duma singela sabedoria, eis tal, que tive aqui postar:

“Todo o sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser, todo o verbo é livre para ser direto ou indireto. Nenhum predicado será prejudicado, nem tão pouco a frase, nem a crase, nem a vírgula e ponto final! Afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas, e estar entre vírgulas pode ser aposto, e eu aposto o oposto: que vou cativar a todos sendo apenas um sujeito simples.”

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Amor e seu tempo


*“Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.”

*Drummond

Inconfesso Desejo


*“Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta vontade
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo
Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos
Cantar aos quatros ventos
As palavras que brotam
Você é a inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo”

*Carlos Drummond