Já
disse a poeta Adélia Prado: “Não precisa inventar nada, nada, nada”. E não
precisa mesmo! Alegria tal a pureza duma criança a seguir seus sentimentos e
pensamentos. Assim, a seguir seu rumo, guiados pelo vento. Alegria, tal a
canção de Caetano Veloso: “Sem lenço, sem documento. Nada no bolso ou nas mãos.
Eu quero seguir vivendo, amor. Eu vou. Por que não, por que não...” Basta o meu
coração puro. Alegria, alegria! Estou a sentir e irradiar. E a cada respiração
vou partilhar, sim. Por que, não!
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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
Fome
“A mim que desde a infância venho vindo,
como se o meu destino,
fosse o exato destino de uma estrela,
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
(...)
o céu é bruma, está frio, estou feia,
(...): não quero faca nem queijo.
Quero a fome”
É inútil ter queijo se não tenho fome. Mas se estou com fome, vou
dar um jeito de arranjar um queijo...
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Casamento
“Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser
pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da
noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir,
retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente
sozinhos na cozinha,
de vez em quando os
cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como
"este foi difícil"
"prateou no ar dando
rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos
vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como
um rio profundo.
(...)
somos noivo e noiva.”
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
O Amor no Éter
*“Há dentro de mim uma paisagem entre meio-dia e duas horas da tarde. Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água, entram e não neste lugar de memória, uma lagoa rasa com caniço na margem. Habito nele, quando os desejos do corpo, a metafísica, exclamam: como és bonito! Quero escrever-te até encontrar onde segregas tanto sentimento. Pensas em mim, teu meio-riso secreto atravessa mar e montanha, me sobressalta em arrepios, o amor sobre o natural. O corpo é leve como a alma, os minerais voam como borboletas.(...)”
*Adélia Prado
Com licença poética
*”Quando
nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar
bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não tão feia que não
possa casar,(...). Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens,
fundo reinos (dor não é amargura). Minha tristeza não tem pedigree, já a minha
vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida, é
maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou.”
*Adélia Prado
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Ensinamento
*“Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.”
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.”
Poesia da escritora
*Adélia Prado, nasceu em 1935. Ela é escritora e professora por formação.
Revitalizou a literatura inserindo a mulher como intelectual, mesmo acumulando as
funções domésticas.
quarta-feira, 21 de maio de 2014
Louvação para uma Cor
*“O amarelo faz decorrer
de si os mamões e sua polpa,
o amarelo furável.
Ao meio-dia as abelhas, o doce ferrão e o mel.
Os ovos todos e seu núcleo, o óvulo.
Este dentro, o minúsculo.
Da negritude das vísceras cegas,
amarelo e quente, o minúsculo ponto,
o grão luminoso.
Distende e amacia em bátegas
a pura luz de seu nome,
a cor tropicardiosa.
Acende o cio,
é uma flauta encantada,
um oboé em Bach.
O amarelo engendra.”
o amarelo furável.
Ao meio-dia as abelhas, o doce ferrão e o mel.
Os ovos todos e seu núcleo, o óvulo.
Este dentro, o minúsculo.
Da negritude das vísceras cegas,
amarelo e quente, o minúsculo ponto,
o grão luminoso.
Distende e amacia em bátegas
a pura luz de seu nome,
a cor tropicardiosa.
Acende o cio,
é uma flauta encantada,
um oboé em Bach.
O amarelo engendra.”
*Poema de Adélia Prado, professora,
mãe e dona de casa.
domingo, 23 de março de 2014
Água
Depende da temperatura, a água
se contrai ou expande. Seja nos estados que a transformam: solidificada, em
vapor ou na fase líquida, ela dá movimento e cor ao mundo. No solo ela escoa e segue
em um único destino, não importa os contornos que tenha a assumir, é o mar que
lhe toma. Assim como a vida, que sem ela não existe, a água não volta ao mesmo
ponto, permanentemente se refaz. Cuidá-la para a sua existência não secar e mantê-la
purificada é mais que preciso, um louvor.
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