Lembrei
da minha doce infância, lendo Virginia Woolf. “Era um crepúsculo de verão. O
sol se punha. O céu ainda azul tingia-se de dourado, como se tudo se cobrisse
de um fino véu de gaze. Aqui e ali, na amplidão ouro e azul, pairavam ilhas de
arminho em suspenso. Nos campos as árvores se erguiam majestosas e ricamente
ataviadas por suas inumeráveis folhas. Viam-se ovelhas e vacas, cor de pérola
ou malhadas, jacentes as mais das vezes ou passando através da relva
translúcida. Tudo estava orlado de luz.”
quinta-feira, 15 de setembro de 2016
domingo, 11 de setembro de 2016
Lira do amor romântico - parte 4
*”(...)Atirei um limão n’água,
não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram,
tu me terás esquecido?
Atirei um limão n’água,
caiu certeiro: zás-trás.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado pra trás.
Atirei um limão n’água,
de clara ficou escura.
Até os peixes já sabem:
você não ama: tortura.
Atirei um limão n’água
e caí n’água também,
pois os peixes me avisaram,
que lá estava meu bem.
Atirei um limão n’água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.”
*Carlos Drummond
Lira do amor romântico - parte 3
*”(...)Atirei um limão n’água,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.
Atirei um limão n’água,
de tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.
Atirei um limão n’água,
antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
a minh’alma dolorida.
Atirei um limão n’água,
pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choraram
porque tu me abandonaste.
Atirei um limão n’água.
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso.
(...)”
*Carlos Drummond
Lira do amor romântico - parte 2
*”(...)Atirei
um limão n’água,
ele afundou
um barquinho.
Não se
espantaram os peixes:
faltava-me
o teu carinho.
Atirei um
limão n’água,
o rio logo
amargou.
Os
peixinhos repetiram:
É dor de
quem muito amou.
Atirei um
limão n’água,
o rio ficou
vermelho
e cada
peixinho viu
meu coração
num espelho.
Atirei um
limão n’água
mas depois
me arrependi.
Cada
peixinho assustado
me lembra o
que já sofri.
Atirei um
limão n’água,
antes não
tivesse feito.
Os
peixinhos me acusaram
de amar com
falta de jeito.
(...)”
Lira do amor romântico - parte 1
*”Atirei um
limão n’água
e fiquei
vendo na margem.
Os
peixinhos responderam:
Quem tem
amor tem coragem.
Atirei um
limão n’água
e caiu
enviesado.
Ouvi um
peixe dizer:
Melhor é o
beijo roubado.
Atirei um
limão n’água,
como faço
todo ano.
Senti que
os peixes diziam:
Todo amor
vive de engano.
Atirei um
limão n’água,
como um
vidro de perfume.
Em coro os
peixes disseram:
Joga fora
teu ciúme.
Atirei um
limão n’água
mas perdi a
direção.
Os peixes,
rindo, notaram:
Quanto dói
uma paixão!
(...)”
*Carlos Drummond
sábado, 10 de setembro de 2016
Soneto XXI de Pablo Neruda
”Oh que todo o amor propague em mim sua
boca,
que não sofra um momento mais sem primavera,
eu não vendi senão minhas mãos à dor,
agora, bem-amada, deixa-me com teus beijos.
Cobre a luz do mês aberto com teu aroma,
fecha as portas com tua cabeleira,
e em relação a mim não esqueças que se desperto e choro
é porque em sonhos apenas sou um menino perdido,(...)
Oh, bem-amada, e nada mais que sombre
por onde me acompanhes em teus sonhos
e me digas a hora da luz.”
que não sofra um momento mais sem primavera,
eu não vendi senão minhas mãos à dor,
agora, bem-amada, deixa-me com teus beijos.
Cobre a luz do mês aberto com teu aroma,
fecha as portas com tua cabeleira,
e em relação a mim não esqueças que se desperto e choro
é porque em sonhos apenas sou um menino perdido,(...)
Oh, bem-amada, e nada mais que sombre
por onde me acompanhes em teus sonhos
e me digas a hora da luz.”
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
As sem-razões do amor
*“Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
E nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
E com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
É semeado no vento,
Na cachoeira no eclipse.
Amor foge a dicionários
E a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
Bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
Nem se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
Feliz e forte em si mesmo.
Não precisas ser amante,
E nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
E com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
É semeado no vento,
Na cachoeira no eclipse.
Amor foge a dicionários
E a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
Bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
Nem se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
Feliz e forte em si mesmo.
(..)”
*Drummond
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