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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Não pensar!


* “Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,(...)”


*Fernando Pessoa

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Evasão


*”Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu não é ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.”

Vivo fugindo, o que importa, se vivo pra valer... “Viajar! Perder países! Ser outro constantemente, Por a alma não ter raízes De viver de ver somente!” também de *Fernando Pessoa.

Alma, por Pessoa


*“Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.”


O que entendemos da alma dos outros é o que imaginamos, apenas, pois é um outro universo que não conhecemos. Tal expressa a poesia do escritor português *Fernando Pessoa, em Poesias Inéditas (1930-1935).

Sorte


*“As coisas que errei na vida
São as que acharei na morte,
Porque a vida é dividida
Entre quem sou e a sorte.

As coisas que a Sorte deu
Levou-as ela consigo,
Mas as coisas que sou eu
Guardei-as todas comigo.

E por isso os erros meus,
Sendo a má sorte que tive,
Terei que os buscar nos céus
Quando a morte tire os véus
À inconsciência em que estive.”

“Só a morte revelará quem fomos em vida inconscientes”. Pelas palavras de *Fernando Pessoa in Novas Poesias Inéditas.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Autopsicografia


Quando eu estudava Arquitetura, em Pelotas, eu ganhei enrolado num bombom de chocolate, um poema de Fernando Pessoa, o poeta maior da língua portuguesa:

“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.”