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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Trabalho


Por encargo da inteligência inominável da natureza, em terras virgens, ricas e férteis, brotam matas retorcidas, vigorosas e selvagens. O homem para tirar seu proveito, labora: destrói a flora, revolve o solo e semeia o que lhe parece ser útil. Com ou sem consistência mesmo que disciplinadamente, ele faz fecundar sementes de uma única espécie. Forjando ilusões, a quimeras de um futuro próspero. Objetivo é preciso, pois a alma tresmalha. O campo da imaginação envereda até que a última gota d’agua naquele lugar seque e tudo vira deserto.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Arte de Amar


*”Se queres sentir a felicidade de amar,
Esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.
Deixe o teu corpo entender-se com outro corpo,
porque os corpos se entendem, mas as almas não.”


Arte de Amar, poema do pernambucano *Manoel Bandeira (19/04/1886 – 13/10/1968). Ele foi poeta crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor. Sua literatura tem abordagens temáticas cotidianas e universais. 

sexta-feira, 27 de março de 2015

Estranha matemática do amor


Conta a lenda das metades que meia alma mais outra meia alma dá um inteiro de amor. Aquela história da carochinha das metades da laranja. Mas se essa história for de um inteiro querendo somar outro inteiro, os contrários dessa matemática estranham, porque parece que o amor não encontra a soma. A história dá conta que há muitos inteiros que se acham metade para tentar encontrar a matemática perfeita. Balela. Se és inteiro. Inteiro será. A soma pode ser X+Y ou X+X ou Y+Y, e ainda será amor.

sábado, 13 de setembro de 2014

Eu


*“Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
(...)

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!”

*Florbela Espanca

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Alma, por Pessoa


*“Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.”


O que entendemos da alma dos outros é o que imaginamos, apenas, pois é um outro universo que não conhecemos. Tal expressa a poesia do escritor português *Fernando Pessoa, em Poesias Inéditas (1930-1935).

terça-feira, 20 de maio de 2014

A Flor Azul


Tem coisas que só nosso coração pode fazer que algo exista. Tal a lenda da flor azul. Da flor, de azul precioso e raro, cujo perfume embriaga despertando o mais intenso desejo. Perfume que se volatiliza e por isso, torna inatingível sua captura. Flor que é de uma delicadeza infinita, diáfana. Daquilo que, se sonha ou se busca, não posso ter. O que está dentro da gente e é inalcançável. Talvez nem exista esta coisa, mas a idéia: por isso nossa alma pode sim, sentir o seu perfume.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Sombra


Meus pensamentos vão mais longe e mais rápido que posso esperar. Dou por conta e me encontro a mergulhar em mares gigantes. Nado em mundos subterrâneos d’alma. Espreito vidas. Saio pra me alimentar. Tenho decisões a tomar. Preciso ancorar meus sonhos. Conferir minha memória dos medos, dos amores, dos pudores. Do vazio. Em vez de pegadas ou rastros, a imaginação deixa sombras. Eis, Elie Wiesel, que disse: "Deus é a sombra do homem. Assim como a sombra repete os movimentos do corpo, Deus repete os movimentos da alma".