sábado, 10 de setembro de 2016

Soneto XXI de Pablo Neruda


”Oh que todo o amor propague em mim sua boca,
que não sofra um momento mais sem primavera,
eu não vendi senão minhas mãos à dor,
agora, bem-amada, deixa-me com teus beijos.

Cobre a luz do mês aberto com teu aroma,
fecha as portas com tua cabeleira,
e em relação a mim não esqueças que se desperto e choro
é porque em sonhos apenas sou um menino perdido,(...)

Oh, bem-amada, e nada mais que sombre
por onde me acompanhes em teus sonhos
e me digas a hora da luz.”

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

As sem-razões do amor


*“Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
E nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
E com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
É semeado no vento,
Na cachoeira no eclipse.

Amor foge a dicionários
E a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
Bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
Nem se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
Feliz e forte em si mesmo.

(..)”

*Drummond

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Trabalho


Por encargo da inteligência inominável da natureza, em terras virgens, ricas e férteis, brotam matas retorcidas, vigorosas e selvagens. O homem para tirar seu proveito, labora: destrói a flora, revolve o solo e semeia o que lhe parece ser útil. Com ou sem consistência mesmo que disciplinadamente, ele faz fecundar sementes de uma única espécie. Forjando ilusões, a quimeras de um futuro próspero. Objetivo é preciso, pois a alma tresmalha. O campo da imaginação envereda até que a última gota d’agua naquele lugar seque e tudo vira deserto.

O amor antigo


*“O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

(...)o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mais pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.”

*Drummond

sábado, 3 de setembro de 2016

Medo


Sinto-me presa ao solo onde eu nasci, imobilizada, num estado de enorme conforto. Aqui, não tenho medo. Quem me sacudiria desse estado e poria asas aos meus sonhos? Quem, senão o medo redobraria a minha coragem de querer voar? Medo de quê? Que esforço empreenderia para ter o medo, se a coisa que mais tenho medo no mundo é abafar meus sentimentos, me combater e me ferir. Que a vida pacata, insuportável medo, não vai me combalir. Temo a Deus, sim! Rezo o traçado que Ele me propõe. 

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Da responsabilidade


Pelo pensamento Montaigne é justo diferenciar um erro devido à fraqueza de ânimo da falta por má índole. Neste caso, a ação é com pleno conhecimento de causa. No outro, invoca-se a própria natureza, do qual provém a fraqueza e imperfeição, da pusilanimidade. Na sua lógica, podem-se responsabilizar os culpados em ambas as ações e assim censuram e condenam os infiéis. A vergonha é o castigo que revive a coragem. Quando a falta evidencia a coragem fora do comum, é racional considerá-la ato malicioso e punir-se-á nesta qualidade.  

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Vãs são as palavras


*“As repúblicas bem organizadas e administradas não deram muita importância aos oradores.(...) Sócrates e Platão definem a oratória como a arte de enganar e adular. E os que se erguem contra esta definição geral, comprovam-na em seus preceitos.(...) Trata-se de um instrumento muito adequado a excitar ou acalmar o populacho alvoroçado e que, como a medicina, só se aplica aos Estados enfermos.” Pois, como já dizia um antigo retórico, sua profissão,  consiste em fazer com que as coisas pequenas parecerem grandes e como tal se aceitassem.

Disse *Montaigne.